terça-feira, 8 de novembro de 2011

Saída inesperada

         Existem pessoas que não suportamos em hipótese alguma. Que não merecem de nós mais do que dois minutos da nossa atenção. Àquelas para qual olhamos sem o menor interesse no que estão dizendo, mas, mesmo notando, ou fingindo não nos notar, tecem considerações cansativas sobre suas vidas íntimas.
         O Furtado era uma dessas pessoas repetitivas e enfadonhas. Os assuntos eram os mesmos todas as vezes que nos encontrávamos na parada de ônibus, depois do trabalho. Não mudava sequer a ordem como contava-os. Fazia sempre gestos espalhafatosos para ilustrar as palavras. Numa semana dessas, bateu recorde de seqüência de assuntos inúteis: quatro ao todo; um assunto para cada dia da semana, todos religiosamente repetidos na sexta-feira. Nem os cansarei mais, dizendo que os assuntos da presente semana eram os mesmo da semana passada, que se repetiam inesgotáveis por quase o mês inteiro, salvo, acontecesse algo de novo que fosse digno de alterar a rotina do pobre coitado.
         Certa vez, aproximando-se a hora de ir embora, fiquei pensando como faria para dar um drible no Furtado naquele dia.  Fiquei calculando o que era mais seguro: se eu atrasasse a hora de chegar à parada, ou se o melhor era ir adiantando-me para pegar outro ônibus que passasse mais cedo, frustrando assim, sua esperança de ter-me, naquele dia, como interlocutor de suas pilhérias e bobagens que ocorrem, diariamente, na mediocridade de sua vida. Pensei, calculei, fiz simulações de várias situações, não tive dúvidas: o mais seguro é a pressa. Corri, pois faltavam apenas dez minutos para encerrar o expediente. Saí do prédio andando apressado, porém, sem correr, como um maratonista de marcha atlética, com quadris duros e sem nenhuma desenvoltura, observando, de pouco em pouco, o relógio, com o medo enorme de perder o ônibus que passa sempre alguns minutos antes do habitual.
         Virando à esquina, no segundo quarteirão, deparo-me com uma multidão de olhos fixos para o chão. Estavam todos na outra calçada, próximo a extremidade oposta da rua. Aproximando-me, noto através de espaços deixados entre pernas e braços, alguns objetos por mim reconhecidos de imediato, tais como, um celular com teclas apagadas, um par de óculos e uma pasta de documentos nova, que o Furtado fez questão de levar-me com ele para comprá-la numa lojinha no centro da cidade, só para que eu desse uma olhada na moça, uma das vendedoras da loja, que estava saindo com ele. Após sairmos, perguntou-me de modo ansioso sobre o que eu achava da moça, no que lhe respondi:
         - Bonita, mas uma beleza discreta; quase imperceptível.
         Ele mostrou-se cético e olhou-a mais atentamente. Não se convencendo, saímos os dois para almoçar: ele, ainda pensativo, eu, desesperado por passar toda a hora do almoço com ele.
         No local do acidente, à medida que os objetos caídos no chão apareciam-me, imediatamente, para minha surpresa e espanto, um rosto familiar surgia na minha memória; e o resultado foi chocante: era o Furtado!
         - Só pode ser ele. Aqueles objetos...
         Não me lembro se segurei em algum poste, ou me encostei à parede de alguma loja. O fato é que foi difícil, para mim, pensar naquela pobre criatura (que me aborrecia ao menor sinal da sua presença), estar ali, estendida ao chão. Após pensar nisso um mal- estar tomou-me o estômago; invadiu-me à consciência uma nuvem negra, cheia de culpa e remorso. Caminhei por entre os curiosos até aproximar-me do corpo, que a esta altura, já estava coberto por um pano sujo, encontrado por ali mesmo; e ao redor, sangue, muito sangue. Pensei novamente no infeliz e, colocando na balança os homens medíocres e os altivos, conclui que ninguém merece uma morte tão desastrosa em tenra idade. Na multidão, alguns conhecidos nossos, colegas de parada de ônibus, tentavam traçar a definitiva personalidade do defunto: uns diziam que ele foi uma pessoa simpática; outros, diziam que gostava muito de conversar; todos unânimes em achá-lo entediante demais, na maioria das vezes. Fui me afastando lentamente; peguei o ônibus logo em seguida, numa parada próxima dali.
         Na manhã seguinte, estou tomando meu café e lendo meu jornal, quando percebo um título no rodapé da terceira página dando esclarecimentos sobre o acidente do dia anterior. Passo os olhos com singelo interesse pela matéria, ao mesmo tempo em que trago a xícara de café à boca. Rápido, devolvo a xícara à mesa, aproximo o jornal para perto dos olhos - nesse momento os dois bastante arregalados, diante da notícia que me surpreende: o defunto não era o Furtado; no jornal, o nome da vítima chama-se Marcelo. Depressa, fiz o desjejum e corri para o trabalho a fim de certificar-me do que eu acabara de ler. Chegando ao prédio, subi os três lances de escadas que dão acesso ao meu setor com relativa destreza, digna dos melhores atletas olímpicos.  Logo que cheguei à sala, vi dezenas de pessoas ao redor de um homem que estava sentado numa cadeira, com as mãos no rosto e soluçando bastante. Logo compreendi que se tratava do Furtado. Perguntei ao Costa, que estava mais próximo a mim, o que havia acontecido.
         - O que aconteceu com o Furtado? Por que chora tanto? Perguntei com sincera curiosidade.
         - Seu primo, o Marcelo. Foi atropelado por um carro que fugiu e não prestou socorro. Morreu ali mesmo, na rua. O coitado do Furtado não para de lamentar a tragédia que alcançou seu parente.
         - Lamentável, falei consternado. Você sabia que quase presencio o acidente? Dobrei a esquina e vi a multidão se formando, como urubus, cercando um corpo no chão. A propósito, pensei até que era o próprio Furtado quem estava estirado no chão. Vi o seu celular, o par de óculos... A pasta! Tenho certeza de que era a dele, fui com o próprio comprá-la... Já não entendo mais nada.  
         O Costa, levantando os ombros, disse-me:
         - O celular estava com o primo, que veio pegar ontem pela manhã. Quanto aos óculos, creio que você se enganou; são bastante parecidos, mas não são os mesmos. Com relação à pasta, eu não saberia dizer-lhe...
         Já me sentindo nessa hora bastante aliviado, e certo da salvação do amigo - ao mesmo tempo absolvido de minha consciência pesada - fui ter com ele, que só de olhar, causava dó.
         - Ô Furtado, meus pêsames pelo seu primo... Nosso trânsito está cada vez pior, companheiro. Quando acontece um acidente dessa natureza, e matamos alguém, mesmo sem a intenção de cometê-lo, somos julgados pelos outros como assassinos. A irracionalidade do ser humano sublinha nossa covardia quando não ajudamos as vítimas nessas horas. Não podemos pedir coragem e senso cívico às pessoas no momento de um aperto como esse.   
         Ao que ele me respondeu cheio de amargura e desolação nos olhos:
         - Entendo suas palavras, amigo, mas, a minha dor, vem de que não se tratava apenas de um primo que caiu vítima da covardia dos outros: era também meu irmão! Eu compartilhava com ele, setenta por cento de tudo que acontecia comigo; era meu coração, e, principalmente, ouvido para minhas queixas e razões. Debaixo daquele pano imundo e cheio de sangue, ficou grande parte da minha biografia. Tudo ali escrito... Tudo ali em branco agora.  
         Abaixou a cabeça e voltou para seu calvário de dor. Eu, pelo meu lado, fiquei sem palavras; a dor do Furtado era sincera, e sem censuras. Depois refleti sobre ser eu, por acaso, os outros trinta por cento restantes dessa sua obra biográfica; ocorreram-me calafrios na espinha só de pensar em tal coisa. Olhei mais uma vez para o trapo de homem em que se tornara meu amigo de trabalho. De passagem, coloquei a mão no seu ombro, e ri, imaginando o rosto de alívio do seu primo, debaixo daquele pano imundo de sangue. 

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