sexta-feira, 11 de março de 2011

Jornalista é gente?

Se analisarmos apenas na perspectiva isolada da foto famosa que o jornalista Kevin Carter fez da criança sendo espreitada pelo urubu, podemos considerar um ato de desumanidade. Porém, analisada dentro da ótica jornalística, no intuito de mostrar ao mundo a verdadeira face da miséria africana, ela merece os prêmios que a consagrou.

Agora, deixemos de lado as duas perspectivas, pesando os valores que cada uma assumiu nesse horrendo fato. Podemos afirmar, com relatos de amigos que acompanharam o jornalista, que ele não ajudou a criança a voltar ao acampamento, onde provavelmente estaria longe da ameaça do urubu. Temos então provas de que ele não agiu eticamente, pois não providenciou ajuda da indefesa criança; tornou-se indiferente à sua sorte.

Mas a foto repercutiu, e o mundo tomou conhecimento da terrível realidade daquele povo. Não tenho ideia da resposta positiva que a foto provocou nos países, mas, acredita-se, teoricamente, que ele salvou muitas crianças do flagelo da fome. Então, ele teve uma atitude ética ao fotografar aquele instante. No primeiro momento ele foi ético; num segundo foi antiético. Portanto, o que esperamos do profissional jornalista quando em determinado momento ele tenha que escolher como agir para o bem de todos e sua satisfação profissional?

Outros dirão: - ele poderia ter tirado a foto e logo em seguida socorrer a criança. Mas, se a ave fosse de sobressalto por cima da criança e cravasse seu aquilino bico naquela frágil cabeça descoberta? Daria tempo para o nosso bravo jornalista ajudá-la e também tirar a famosa foto? Foi no mínimo uma irresponsabilidade. Foi fazer malabarismo com a vida de outrem. Talvez ele soubesse que a ave só agiria depois de ter certeza da morte da vítima. Mas, quem sabe?

Segundo o jornalista Eugênio Bucci, em seu livro Sobre ética e imprensa, na introdução ele escreve falando a respeito da imprensa na democracia moderna "Os meios de comunicação se edificam como o novo palácio da aristocracia – por isso, mais do que antes, devem ser regidos por uma ética que preserve, acima de tudo, os direitos do cidadão".  

Ora, mas qual é o direito supremo do cidadão de acordo com os fundamentos éticos da nossa sociedade? A vida, claro! Mas até que a própria liberdade. Esse é o bem maior que deve ser respeitado em todas as situações em que o jornalista esteja diante de um furo jornalístico. A desculpa de que a morte de um vai ajudar milhões, segue uma falsa ética utilitarista, a que os donos de jornais, cinicamente, professam, quando encontram escondidos sob a manta de jornalismo, algum retorno comercial.

Mas a ética que acabei de expressar acima é fundamentada na ética cristã. Que professa a vida do indivíduo acima de tudo – veja a questão do aborto para se ter a ideia de até onde os cristãos entendem o que é vida. E sabemos que ela vem perdendo força ao longo dos anos. Portanto, nos erros e acertos da atitude do jornalista que fez a foto, fica o fato de que o jornalista deve estar vigilante sobre sua conduta, e pesar bem os valores éticos que a sociedade e sua profissão espera dele.

0 comentários:

 
;