Ao dobrar numa rua escura, andando distraído e despreocupado, Murilo topa em um objeto que se assemelha a um maço de cartas. Apanha-as, e constata que são várias cartas escritas num papel simples, que se faziam amareladas pelo tempo, e pela lama da rua. Revira-as de um lado para o outro, procurando um endereço, ou remetente para que possa identificá-las; mas, ao descobrir, o pavor lhe obriga a jogar as cartas no chão e recuar devagar para a rua por onde entrou.
Chegando a um bar próximo dali, pediu uma cerveja e ficou observando a entrada daquela sinistra rua, que mais se assemelhava com um estreito beco. O receio aumentava o medo de que alguém, ou alguma coisa, de repente saísse dali pondo-se a caminhar em sua direção, com aquelas cartas na mão. Virou-se apressado para o outro lado e fitou dois homens que estavam conversando, muito próximos um do outro. Parecia que o olhavam e cochichavam algo sobre ele.
- O tempo anda estranho, pensou. Não consigo acreditar no que acabou de me acontecer. Aquelas cartas eram para mim! Mas como? Não faz nem dois meses que me mudei para esse lado da cidade. Quem poderia me conhecer nesse lugar?
E o temor voltava a assombrá-lo quando lembrava que as cartas foram datadas no ano em que ele nasceu, há cerca de vinte anos atrás.
Depois de pagar a conta do bar, Murilo encaminhou-se para seu destino, porém, evitou passar perto da rua que acontecera tamanho absurdo. Desceu pela rua lateral do bar, contornando por detrás do grande mercado de frutas. Nem chegava a imaginar o porquê daquilo tudo; a surpresa velava a curiosidade natural nesses casos: tudo que ele queria era correr dali. O mais que depressa possível!
Mais tarde, em sua casa, começou a pensar nos motivos que o fizeram chegar àquela cidadezinha, sem graça, cinzenta e decadente. Sem muita coisa por fazer, pois estava desempregado, passava o dia inteiro a caminhar pelas ruas das cidades aonde chegava.
Então tomou a decisão de voltar à viela escura. Mas as cartas já não mais estavam no chão. Olhou demoradamente para os pedaços destruídos das antigas casas que ladeavam o logradouro. Percebeu uma construção bem mais antiga que as outras, porém, a fachada moderna erguia-se imponente. O antigo casebre encontrava-se defronte onde Murilo achou as cartas pela manhã.
Entrou e percebeu um senhor rechonchudo sentado numa cadeira larga. O velho segurava nas mãos uma espécie de saco gelatinoso. Tinha o ar sério e o olhar interrogativo. Mas não interrogava ao nosso personagem; nem notou a presença dele quando este se aproximou. Interrogava a si mesmo. E balançava-se na sua cadeira larga, sem ao menos perceber Murilo.
-Boa tarde, falou Murilo. O senhor mora aqui? É que...passei hoje pela manhã e... bom, deixa pra lá. O senhor é o dono daqui?
Virou-se e olhou o visitante de alto a baixo.
-Não, senhor. Aqui não tem nenhum dono. Tem dona. Dona Efigênia. Mas ela se foi há muito. Deixou-me aqui, e se foi. Tudo era tão alegre antigamente. Aquele salão... E apontou em direção à rua. Mas para quê lembrar-se dessas coisas...
- E o que funcionava aqui antes? O senhor poderia me dizer?
Foi o bastante para o velho levantar-se. Caminhou até uma portinha no fim do corredor. Tirou qualquer coisa de dentro, e voltou-se para a sala. Tome!, falou. Aqui estão! Um dia eu teria que lhe entregar. Foi por causa disso que eu fiquei aqui tanto tempo. Sempre tive admiração por Efigênia.
Nas mãos um maço de cartas. As mesmas que pela manhã assustara Murilo. Trêmulo, pegou-as. E sem conseguir pronunciar palavra, olhou em volta.
- Aqui funcionava uma casa noturna, tornou o velho. Muitas meninas lindas! Rapazes dos mais abastados. Agora pegue suas cartas e vá. Vá embora!
O ar da tarde, naquelas imediações da cidade, exalava o odor fétido de lixos e mais lixos acumulados durante todo o dia do mercado de frutas do Centro. Murilo encostou-se na parede da casa de frente e abriu devagar uma das cartas. Na primeira linha a frase: Meu querido filho, se receberes essas cartas, saberás, enfim, que eu fiz tudo por tê-lo comigo. Mas não foi possível. Até qualquer dia. Rogo-lhe que me perdôe. E discorria mais algumas linhas. Abaixo, assinava Efigênia. A mãe havia lhe abandonado no dia do seu nascimento.
Murilo andava por aí, em busca de algo, mas sem saber o que procurar. Passou por várias cidades. Mas sem o saber, andava diferente dos outros. Os seus passos sempre o conduziram para trás. E para trás ele andou todos esses anos, para encontrar-se consigo mesmo, naquela rua onde só ele poderia passar.
Chegando a um bar próximo dali, pediu uma cerveja e ficou observando a entrada daquela sinistra rua, que mais se assemelhava com um estreito beco. O receio aumentava o medo de que alguém, ou alguma coisa, de repente saísse dali pondo-se a caminhar em sua direção, com aquelas cartas na mão. Virou-se apressado para o outro lado e fitou dois homens que estavam conversando, muito próximos um do outro. Parecia que o olhavam e cochichavam algo sobre ele.
- O tempo anda estranho, pensou. Não consigo acreditar no que acabou de me acontecer. Aquelas cartas eram para mim! Mas como? Não faz nem dois meses que me mudei para esse lado da cidade. Quem poderia me conhecer nesse lugar?
E o temor voltava a assombrá-lo quando lembrava que as cartas foram datadas no ano em que ele nasceu, há cerca de vinte anos atrás.
Depois de pagar a conta do bar, Murilo encaminhou-se para seu destino, porém, evitou passar perto da rua que acontecera tamanho absurdo. Desceu pela rua lateral do bar, contornando por detrás do grande mercado de frutas. Nem chegava a imaginar o porquê daquilo tudo; a surpresa velava a curiosidade natural nesses casos: tudo que ele queria era correr dali. O mais que depressa possível!
Mais tarde, em sua casa, começou a pensar nos motivos que o fizeram chegar àquela cidadezinha, sem graça, cinzenta e decadente. Sem muita coisa por fazer, pois estava desempregado, passava o dia inteiro a caminhar pelas ruas das cidades aonde chegava.
Então tomou a decisão de voltar à viela escura. Mas as cartas já não mais estavam no chão. Olhou demoradamente para os pedaços destruídos das antigas casas que ladeavam o logradouro. Percebeu uma construção bem mais antiga que as outras, porém, a fachada moderna erguia-se imponente. O antigo casebre encontrava-se defronte onde Murilo achou as cartas pela manhã.
Entrou e percebeu um senhor rechonchudo sentado numa cadeira larga. O velho segurava nas mãos uma espécie de saco gelatinoso. Tinha o ar sério e o olhar interrogativo. Mas não interrogava ao nosso personagem; nem notou a presença dele quando este se aproximou. Interrogava a si mesmo. E balançava-se na sua cadeira larga, sem ao menos perceber Murilo.
-Boa tarde, falou Murilo. O senhor mora aqui? É que...passei hoje pela manhã e... bom, deixa pra lá. O senhor é o dono daqui?
Virou-se e olhou o visitante de alto a baixo.
-Não, senhor. Aqui não tem nenhum dono. Tem dona. Dona Efigênia. Mas ela se foi há muito. Deixou-me aqui, e se foi. Tudo era tão alegre antigamente. Aquele salão... E apontou em direção à rua. Mas para quê lembrar-se dessas coisas...
- E o que funcionava aqui antes? O senhor poderia me dizer?
Foi o bastante para o velho levantar-se. Caminhou até uma portinha no fim do corredor. Tirou qualquer coisa de dentro, e voltou-se para a sala. Tome!, falou. Aqui estão! Um dia eu teria que lhe entregar. Foi por causa disso que eu fiquei aqui tanto tempo. Sempre tive admiração por Efigênia.
Nas mãos um maço de cartas. As mesmas que pela manhã assustara Murilo. Trêmulo, pegou-as. E sem conseguir pronunciar palavra, olhou em volta.
- Aqui funcionava uma casa noturna, tornou o velho. Muitas meninas lindas! Rapazes dos mais abastados. Agora pegue suas cartas e vá. Vá embora!
O ar da tarde, naquelas imediações da cidade, exalava o odor fétido de lixos e mais lixos acumulados durante todo o dia do mercado de frutas do Centro. Murilo encostou-se na parede da casa de frente e abriu devagar uma das cartas. Na primeira linha a frase: Meu querido filho, se receberes essas cartas, saberás, enfim, que eu fiz tudo por tê-lo comigo. Mas não foi possível. Até qualquer dia. Rogo-lhe que me perdôe. E discorria mais algumas linhas. Abaixo, assinava Efigênia. A mãe havia lhe abandonado no dia do seu nascimento.
Murilo andava por aí, em busca de algo, mas sem saber o que procurar. Passou por várias cidades. Mas sem o saber, andava diferente dos outros. Os seus passos sempre o conduziram para trás. E para trás ele andou todos esses anos, para encontrar-se consigo mesmo, naquela rua onde só ele poderia passar.

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