quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Cego com cego no duelo do Sertão

O filme Cine Tapuia parece àquela colcha de retalho, bordada por várias mãos, por pessoas que trazem gravadas no espírito, e na lembrança, as mais variadas culturas da gente desse sertão, sertão quase do tamanho do mar, como quis nos mostrar o cineasta Glauber Rocha, no filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, obra prima do Cinema Novo.

 

E essa colcha de retalho passeia por diversas linguagens narrativas, na tentativa de fazer compreender ao espectador, a composição perfeita entre o passado e o presente do seu povo, o universo em que sempre esteve preso o nordestino: o destino de ter sempre sua vida marcada pela dor, sofrimento, superação, e de alguma forma, sempre marcado pela religiosidade pródiga, de quem sempre teve na fé, a linha imaginária que o separa do completo embrutecimento da alma.

 

Ao relacionar o sofrimento do nascimento do primeiro cearense, filho da índia Iracema, com o português Martim, Rosemberg Cariri quis mostrar a grande desventura do seu povo. Utilizando imagens do passado e do presente, atores de um longínquo nordeste e seus heróis atuais, seu folclore, suas danças. Em uma linguagem simples e em algumas passagens, lacônica, tem-se a impressão de que por vezes trocarmos de lugar com o cego Araquém, pai de Iracema, e os ruídos da película parece querer ferir-nos em nossa obstinada cegueira diante da vida.      


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