Esse é um dia especial para Aurélia. O dia dos namorados lhe deixa sempre com um bom humor contagiante no rosto. Fica bem mais companheira do que antes, para quem dela espera se aproximar. Ouve pacientemente as instruções das colegas, com muito afinco; segue todas as instruções e recomendações ordenadas; obediente, senta-se na cama a espera da hora marcada, para tentar a reconciliação com seu grande amor. Nessa espera, imagina recebendo, após o habitual presente, o tão almejado beijo, e o apertado abraço, cheio de paixão.
Sufoca-a a ansiedade; repassa na cabeça tudo que lhe tem a dizer; que a perdoa, que a ama, que a quer; que por ela, deixaria de ser quem dizem que ela é. Tudo ela faria. Mais ainda se ela aceitasse o seu perdão, e não lha recusasse a entrega divina de toda a sua beleza.
Quando enfim chega a hora marcada, Aurélia sai por um corredor que dá acesso a uma grande porta nos fundos. Para diante da porta; duvida por alguns segundo da sua coragem em levar adiante tal desejo. Mas para quem esperou um ano, com intensidade, para estar aqui, não pode dar-se a insensatez de recuar. Seria inglório, seria aviltante, humilhação recuar. No mais... é o meu amor; é o meu único sentido de passar todo esse ano aqui, aflita. Entra finalmente.
Na sala, há duas cadeiras uma em frente à outra. E na outra uma pessoa. Um homem; roupa branca, sapatos brancos, ar grave. Olha para Aurélia e pede para ela sentar. Ela obedece e senta, sempre olhando nos olhos do doutor, então ele lhe pergunta:
- Aurélia, você sente-se bem nesse momento?
- Sim, doutor!
- Lembre-se que no ano passado você me disse a mesma coisa, porém... não foi o que vimos logo após nossa entrevista.
- Eu estava confusa doutor... encontrava-me com sérios problemas...mas todos resolvidos. A amo mais que tudo... é ela por inteira que quero a partir de hoje
- Tudo bem... vamos lhe dar alta. Mas as consultas não vão parar, certo?. Sua família quer que o tratamento dure por mais algum tempo.
- Tudo bem...não coloco empecilhos.
E Aurélia, confiante, ultrapassou aquela porta determinada a nunca mais atentar contra a sua vida. Pois agora ama a vida acima de tudo. Acima de qualquer coisa. E com ela quer perde-se por aí. Arriscar-se em todo tipo de aventura; pois assim afirma seu desejo. Quer namorá-la, quer curti-la, casar com a vida, e dela receber os filhos dessa nova doce loucura.

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