Um colo. Uma mão firme e saudável para segurar esse corpo doente. O último fim de semana foi catastrófico para mim. Catastrófico em parte. Caí doente terrivelmente como a muito não acontecia, mas tive a companhia deliciosa de minha esposa Emanuelle a afagar meu corpo febril, velar meu sono, me dar remédios e cuidar de mim. A doença que me deixou de cama por dois dias foi heroicamente suportada, pois tive por perto, uma atenção carinhosa que me fez torcer, sem qualquer autopiedade, para que a dor e o frio do meu corpo não me abandonassem naquele momento; eu curti dois dias de mimos e cuidados de fazer inveja a qualquer criança. Bem antes de o mundo tomar conhecimento da Gripe Suína, ou Gripe Mexicana ou simplesmente Gripe A (H1N1), eu pensava, curiosamente, na penumbra do meu quarto, deitado numa cama úmida, com a porta do quarto sempre entreaberta, na ideia de que todos deveriam ter essa mesma sensação que eu estava vivendo agora: o corpo com febre, sem força, mas por dentro, imensamente feliz por ter alguém, ali, sempre ao meu lado, me estendendo a mão me perguntando se eu não estava melhorando.
O preferido dos filhos era o menorzinho. Falava com admiração da inteligência do rapaz com os números e com as palavras. Sorria ao falar; e quando falava, enfatizava: gosto de todos eles! Mas não escondia sua enorme alegria pelo o único filho que sabia ler e escrever. Também pudera, em meio à vida sofrida que tivera com os pais, nunca havia tido tempo suficiente para estudar. Nunca pode dar uma educação para seus filhos diferente da que recebeu. Porém, o mais novo se saíra bem sozinho, apesar de trabalhar de dia na roça com seu pai e seus outros irmãos. Eram nove ao todo. Todos assim como ele: camisas suadas e maltrapilhas.
Ele vai ser diferente de mim! Ah, se vai! Inteligente esse diabo! Não parava de falar das habilidades do menino com as contas. A multiplicação seu moço, dizia ele, é pra mim a mais engraçada. Qualquer erro... E o resultado já era!
Tentei lhe explicar que nessas abstrações Matemáticas segue-se uma lógica, e que qualquer falha nessa lógica, em qualquer que fosse a operação, seja na soma, multiplicação ou divisão, o resultado estaria perdido. Mas desisti. A humildade não me deixou que naquele momento, se abrisse o abismo cultural que existe entre eu e aquele sujeito simples e rústico. Abismo esse não por culpa minha ou dele, mas fruto de décadas de esquecimento, de atraso e total falta de comprometimento para com a região do semi-árido brasileiro. Um dos piores climas do planeta. E continuei a escutá-lo:
E as palavras? Cada palavra bonita que ele aprendeu moço! É uma tal de improbidade, que ele me disse que é a semvergonheza que os políticos fazem com nosso dinheiro. Coisas assim que a gente não entende quando escuta o jornal. Mas ele sabe tudo...
Nesse instante eu já ia do cansaço de ficar em pé ouvindo-o à curiosidade no modo expressivo como colocava cada qualidade do seu menino prodígio. Eu estava ali bem na frente dele e não estava ao mesmo tempo. A única coisa que estava em meus pensamentos, era uma terna condescendência de estar diante de uma pessoa que me era familiar somente nos livros. Euclides? Guimarães? Ou talvez Graciliano? Quem nunca ouviu falar que o sertanejo era antes de tudo um forte? Quem não conhece a famosa história dos retirantes e sua cachorra Baleia debaixo de um sol escaldante? Pois é, naquele instante vi um desses se emocionando, transformando em lágrimas a sua admiração pelo filho mais novo. Que sabia apenas ler e escrever.
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