segunda-feira, 24 de dezembro de 2007 0 comentários

Lembranças

Noite calma e fria. A espessa porta de madeira da cozinha está entreaberta para o pátio; a lua é senhora da noite misteriosa que está lá fora; a sua bela luz azulada reflete em cada pensamento do menino uma consternação doce; a brisa que vem de fora trás o cheiro da mata molhada e uma leveza perfumada entra por suas narinas; ele quer ser parte de tudo isso que está aí; abre a porta e a noite lhe invade; desce os degraus que dá para o pátio e pára. No pátio iluminado, lágrimas lhe descem naturalmente; esboça um pequeno sorriso no canto da boca, ligeiramente trêmulo. Abre os braços, agarra-se a terra; chora com mais força agora; amanhã ele será um homem...
sábado, 22 de dezembro de 2007 0 comentários

Roubo no Masp

Lamentável a notícia do roubo dos quadros de Picasso e do Portinari. A tela de Picasso avaliada em 50 milhões de dólares é da sua faze azul, cores frias e que retrata tristeza e melancolia. Do Portinari avaliada em 5 milhões mostra a cultura do café no Brasil. Esperamos que as autoridades competentes recuperem esses tesouros pro bem da nossa cultura
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007 0 comentários

L.A.B

Diário,

Completo hoje quinze anos. Quanta felicidade! Uma idade mágica, que toda garota sonha. Agora posso dizer: estou no auge da minha puberdade! Os anos da minha vida com que tanto sonhei. A vida toda por se desenrolar, ali, na minha frente. Todos os desenganos, as dúvidas, as afirmações pertinentes da própria idade. Nunca mais ouvir exemplos dos outros, estórias de minha mãe, minhas tias. A minha própria vida agora. E ela está lá fora. Quisera eu ter braços grandes para abraçar tudo. Vivenciar tudo. Uma chama que quer me consumir com rapidez e intensidade! De delírio em delírio sonho com uma pessoa para toda a vida. Meu corpo já crescido; seduz e induz ao amor e ao querer. Passeio por entre os homens e sinto o desejo deles me sufocando. Olhares de bichos famintos, esperando a hora de me atacar. Ando receosa, tímida, mas com toda a exuberância e desenvoltura de uma menina de quinze anos. Dormi mais cedo ontem para que esse dia chegasse logo, pra acabar com minha ansiedade. Hoje acordo menos dolorida. Com dor igual eu ficava quando comecei a menstruar. Porém essa dor é mais aguda, mais profunda. Sinto-me muito fraca ainda. A comida que me dão aqui é muito pouca. Não é justo pelo esforço que faço. Pelo que suporto. Pelas carnes fedidas a me agredir. Um, dois, três... Cada dia eu tenho que satisfazer um número maior de apetites. As manchas roxas dos primeiros dias nas minhas pernas, já estão quase desaparecendo. Meus braços já não mostram as marcas da violência de antes. Meu nariz aos poucos suporta esse cheiro de barba imunda, de pele suada. É inútil resistir: um tapa que me arde a face, dois braços que me puxam para o chão e estou ali, brutalmente pronta. Quase desfalecida pelas agressões. Não resisto mais, por isso a minha pele tão manchada pela a insensatez da recusa, volta a ter um aspecto melhor. Fiz quinze anos e aqui estou eu: uma debutante em festa esdrúxula posta como banquete para convidados que não chamei. Por isso Diário, hoje escrevo com mãos jovens essas linhas de futuro repleto de incertezas, mas que não esqueceu o sabor dessa idade.

Prisão de Abaetetuba, 06 de novembro, Belém-PA.

domingo, 2 de dezembro de 2007 0 comentários

Um pequeno comentário sobre a televisão.

Uma análise entre a imagem fotográfica e a televisiva: a fotografia está na origem da grande revolução tecnológica de captação de imagem. A fidelidade com que esse instrumento capta a realidade que nos cerca, determinou o fim da hegemonia da pintura como principal meio de reprodução do real. A imagem estática da fotografia nos permite adentrar no passado, nos demorarmos nos detalhes imperceptíveis que olho humano não detectaria. E poderíamos passar horas refletindo, procurando uma significação por trás da imagem captada. Isso não é possível na imagem televisiva. Tudo é muito rápido, confuso, superficial. Não lembramos sequer do que vimos a segundos atrás. Jogam-se imagens sem a preocupação de ser interpretadas na sua totalidade.
 
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