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terça-feira, 10 de maio de 2011 0 comentários

Nossa Sociedade

Por Nataniel Jebão
Para o Pasquim 21


Já acabou a guerra? Perdoem mas como havia cumprido com meus afazeres e a Air France estava dando descontos para não veados, aproveitei para passar a última semana em Gstaad onde fui comer uma tataraneta de Anastasia.

Feia mas dá para o trivial ainda invernal. Os jornais, como sempre, tentaram montar uma pulga sobre um frágil elefante. Morre mais gente no Brasil em Paz do que no Mundo em Guerra! Isso quer dizer que devemos acabar com a paz? Precisamos é nos revoltar, isso sim, como fez a brava jornalista Ana Cristina Reis, editora do Caderno Ela de O Globo cuja primeira página promove o Chanel Grunge e prova cientificamente que há, sim, senhores e senhoras, estética na transgressão. Como ela, pobrezinha, mesmo confessa, é uma sem chofér e por isso é obrigada a ver um... ser humano, vá lá, sujar o para brisas do seu carro com água e sabão e ainda pedir dinheiro. Felizmente, Sir Anthony Hopkins, trata desses assuntos para mim e carrega sempre uma granada de mão. Diz Cristina que não agüenta mais ouvir falar dos "trabalhadores" do MST que, querem que exigem. E pergunta com toda justiça: "E eu? Sou o quê? Uma desocupada?" Claro que não. É uma corajosa jornalista que estudou e chegou ao posto de editora do caderno Ela. Quero ver algum flanelinha, algum MST chegar à essa posição sem usar um mínimo de violência. E o pior, como diz Cristina, ela não pode nem fugir do Brasil para ver sua irmã nos Estados Unidos, pois vive em Cuba (se entendi bem, uma ironia) e não pode sair do país, pois a PF está em greve e ela não consegue renovar o passaporte. Fiquei sinceramente comovido com a sinceridade desta operária de Gutenberg quando confessou: "O que me impede de invadir a piscina do vizinho, uma vez que sou uma sem piscina? O que me impede de subtrair aquela sandália italiana de strass lindíssima que minha amiga só usa uma vez por mês, uma vez que sou uma sem sandália de strass?" Acredite Cristina, este velho cronista social entende o teu ódio mas como você mesmo diz, ele logo se transformará em elegante repulsa. Que culpa tem você de ser uma com-propriedade, com-avó, com-emprego, com- automóvel? Mas poderia ser pior. Você poderia estar na minha pele e ser uma com-latifundio, com-contas-na-Suíça, com-mansão, com-piscina, com-jatinho, com-Rolls, com poder, com-Beluga e com-Romanée Conti. Aí sim, você veria o que é penar. Sei que sofres mas, por favor, não faça como aquele rapaz de cor parda desempregado que incendiou-se em frente ao Palácio do Planalto num gesto de profundo mau gosto. Agüenta firme como o fizeram os militares, Sarney, Collor, FHC e o rei Çilva I. Estamos todos condenados a viver em Cuba e numa Cuba pior do que a original pois estamos cercados de flanelinhas, prostitutas, desempregados, mendigos, aleijados de todos os matizes, gente que não quis estudar, que não ouviu os conselhos da vovó, que não poupou dinheiro para o inverno, que não leu bons livros, que não entende de moda! Que culpa temos nós? Mas essa gentalha mal educada e mal vestida não perde por esperar, pois um dia nosso ódio será mais forte e nós, os ricos, belos e bem nascidos, partiremos para a revanche final. Não sobrará brioche sobre brioche. Por outro lado, como você bem disse, talvez seja melhor ir almoçar com amigos para desanuviar se as ruas não estiverem fechadas.

Senhorita Nina Rollas! - Pois não, patrão adorado. - Telefone para o Gianfranco Mangiacavallo em Florença e peça-lhe para enviar uma dúzia de rosas grunge da Toscana para Ana Cristina Reis. - E por que ela vai receber tal honra? - Porque é uma das poucas jornalistas brasileiras a entender o espírito do Coiso.
segunda-feira, 2 de maio de 2011 0 comentários

Nataniel Jebão II

Mais do genial Natanile Jebão.

Por Nataniel Jebão
Para o Pasquim 21, 2007


Eu, o grande Jebão, descendente de nobres alienígenas, imperadores, reis, príncipes e papas, jamais me preocupei muito com as questões espirituais. Uma vez que sou imortal, necessito apenas de dinheiro, mulheres e um alfaiate inglês. Tenho-os. Eventualmente, porém, comunico-me com o Além através do computador. Outra noite - depois de realizar com admirável sucesso a posição do coração da magnólia negra sobre a virgem neve - liguei o computador e alva ainda estava a tela quando por ela (viram como rimou?) passou um inseto mínimo, a décima parte de uma formiga.
Preparei-me para esmagá-lo quando uma voz tonitruante soou aos meus sensíveis ouvidos: ''Pense no que vais fazer, Jebão, pois sou Deus''. Para resumir uma longa e instrutiva conversa, direi apenas que ele me explicou tudo. E o tudo, como o nada - e confesso que esta parte não entendi direito, pois as esposas me chamavam para ver o último capítulo da novela Os ricos também broxam - é o ritual, o espetáculo. Houve uma época em que o show era o show e a realidade, a realidade. Hoje, apenas os eleitos, como Berzoini, conseguem distinguir o que é real do que é ficção. Os meios de comunicação usam o ritual para seu jornalismo e os ritualistas usam o jornalismo para o ritual. Por isso precisamos estar sempre atentos: a pedra pode ser nuvem e a nuvem pode ser o que bem quiser, uma vez que toma todas as formas.
Neste momento o mundo real tornou-se tão ficcional que a ficção decidiu vingar-se da realidade. A ficção pode matar a fome e o peixe pode estar podre. O Negro Preto (demorei a entender que ele se referia a Schwarzenegger) bem como a Rainha das Flores (esta foi fácil, referia-se à governadora Rosinha) são apenas alguns sinais que precisam ser decifrados. Depois do Negro Preto virá a Lassie (que em verdade é macho) e depois da Rainha das Flores virá o Baiuno Fresco, que ninguém sabe quem é. Quando a realidade houver se transformado em ficção e a ficção em realidade, Heráclito Fortes levantará um exército famélico no Piauí e invadirá a Venezuela. As autoridades venezuelanas darão de comer aos piauienses e Heráclito será contratado por um circo e fará sucesso no papel de Chico Banha.
Ele (e vocês sabem a quem me refiro) apontou com uma das suas milhares de patinhas para o imenso telão do tálamo, onde as minhas esposas se deliciavam com o último capítulo da novela, e desapareceu num canto da tela do computador antes que eu pudesse lhe perguntar sobre a quadratura do círculo, os limites do universo e o colossal universo dos limites. A resposta só poderia estar no telão e estava. No oitavo mês, Rachel descobriu que estava grávida de Fred, a doméstica. Júlio e Cláudio casaram no civil discretamente, mas no religioso, na boate do Taj Mahal. Arlindo descobriu que Salete é sua filha e mãe do dr. Valcour. Albertinho Limonta será governador da Bahia e descobrirão um poema de João Cabral de Melo Neto no qual ele confessa que a reforma agrária não passa de uma licença poética de sua autoria.

Abricós querem direito legal de casar com breubas

Os eternos descontentes aproveitam-se da falta de transparência da Transparência Internacional para atacar o rei Çilva I. Dizem eles que o monarca, ao contrário do que declarou em campanha, não acabou com a corrupção. Ora, quem quer que tenha um contato minimamente sexual com a arte da política sabe que ela é elástica como hímen barbarizado. O rei disse que acabaria com a corrupção antiga mas não falou da nova. Se falasse, não elegeria. Já o Vingador Careca não podia dizer que acabaria com a antiga porque era a dele. Por baixo do pano, o operário foi obrigado a deixar a nova corrupção correr solto para que os que não conseguiram roubar durante os oito anos do Mulatinho conseguissem pelo menos comprar um apartamentinho em Paris para mostrar aos netos. Isso se chama realpolitik, seus mongróvios!

Carrancas de São Francisco sorriem para bispo

Se não estivessem fazendo meia com os bombeiros nos intervalos de um ato para outro, os atores do teatro brasileiro já teriam copiado os políticos e ninguém os suplantaria. Nem Olivier em Lear, nem Gassman em Orestes. Esqueçam Stanislavski e consultem Duda Mendonça; esqueçam-se do Método e lembrem-se do Palanque. O que dói é que os políticos, esses grandes terpsicoristas, não podem nem receber os aplausos da platéia por suas atuações. Papéis decorados, lágrimas nos olhos, os ministros putrefatamente ricos, mas ainda assim mais preocupados com a polícia, já não explicam por que devemos entregar o Brasil à Alca. Enquanto isso, o rei Çilva I evita José Dirceu, que se transformou num homem-bomba prenhe de ameaças veladas. A vida é um palco cheio de som e fúria, que não significam nada para quem tem três Mercedes na garagem. Graças às informações de Deus, posso gritar, pois a acústica é excelente: ''Tudo pelo Teatro Social''.

Escravos de Jó não dão mais caxangá

Ariel Sharon jogava biriba sábado último com seu neto, o Jacozinho.
- Pô, vô, este jogo está chato - disse o traquinas.
O bom Sharon perguntou:
- E o que sugere o Jacozinho para acabar com este tédio sabatinal?
- Vamos bombardear terroristas.
- Mas hoje, num sábado, dia de descanso?
- Bombardear terrorista não é trabalho, é diversão.
- Mas onde? Eles estão por toda a parte.
- Bota o mapa do Oriente Médio no meio da mesa, vovô.
O bom vovozinho fez o que lhe pediu o neto, que começou a contar batendo com o dedinho indicador no mapa:
- Uni, du, ni, tê, um sorvete colorê, o escolhido foi você.
- Líbano, de novo? - pergunta Sharon.
E o menino:
- Bem, a gente pode recomeçar.
- Não, senhor. Jogo é jogo.
Adoro este espírito esportivo que, como se sabe, nunca foi o forte de Hitler.

Mijões de rua querem proteção contra voyeurs

Ninguém pode negar que o moreno povo do torrão tem sorte. Ao contrário dos americanos e russos, dos franceses e ingleses, dos japoneses e coreanos, ele aprende na paz o que os outros sofrem na guerra. Alguns singelos exemplos: a tarifa de água e esgoto aumentou 22%, mas em compensação as contas telefônicas aumentaram apenas 2,5%, depois do aumento de 17%. É verdade que temos de pagar 20% na gasolina, o que fez com que tudo aumentasse o quanto quisesse, pois isso aqui ainda é uma democracia privatizada graças a Deus, privatizada também pelos bispos ladrões que nunca ouviram falar no São Francisco, o rio casamenteiro. Apesar disso, a inflação inexiste.

JEBARBOSAS

* Alemãs de Hamburgo abriram uma creche onde deixam os maridos do meio dia às seis da tarde, enquanto elas se divertem nos rendez-vous locais.
* Apesar disso, o número de cornos teutônicos continua estável.
* Lágrimas nos olhos, Çilva I implorou aos banqueiros que emprestassem dinheiro aos pobres, jurando pela honestidade deles. Os banqueiros não se comoveram.
* O Fluminense perdeu de 6 a 1 para o Paraná e depois foi até Caxias do Sul e ganhou de 4 a 3 do Juventude. Estranho, muito estranho.
* Vote sim ou vote não ao desarmamento. Não importa o resultado, o número de armas dobrará.
* O Brasil tem duas leis não escritas que não podem ser quebradas: "Por baixo do pano" e "Pacto de silêncio", este último inaugurado pelo ministro Nelson Jobim. Elas podem ser invocadas por qualquer parlamentar apanhado com a bunda de fora.
* O Vaticano sempre teve um papa para aparecer – o oficial – e um papa para mandar – o Papa Negro, que sempre foi branco.
* Por enquanto só se sabe que o Papa Negro do alemão é cambojano.
* O desenhista do belo filme A fuga das galinhas inspirou-se no sorriso das senhoras que alegram a crônica social brasileira e que – desconhece-se o motivo – são chamadas carinhosamente de peruas.
* Palavra de Jebão: o Congresso aprovará o casamento entre os senhores viados por larga margem se a votação for secreta.
* Muitos parlamentares alegres não querem tornar pública a sua alegria.
* Desmentida a notícia de que o decorador Cesar, o Maia, teria sido vítima da febre aftosa.
* A ONU declarou que a responsabilidade de acabar com a tortura no Brasil é do seu Sardinha, vendedor de pipoca em Aldeia Campista.
* Numa tentativa de agradar aos religiosos, os traficantes têm batizado a cocaína.

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Take it easy, Senator!

Alegria no partido republicano dos EUA:

- Great!, Obama is dead! God save the America!
- Take it easy, Senator. It´s Osama.
- Oh, shit!
sexta-feira, 29 de abril de 2011 0 comentários

Nataniel Jebão

      Numa tarde de um dia lembrado no ano de 2003, passeava eu pelas dependências do shopping Center Iguatemi, vagando em horas ociosas do expediente tranqüilo de uma loja fotográfica em decadência, porém com algum dinheiro no bolso, resquício do salário de uma quinzena há muito passada, quando meus olhos não deixaram de ver, numa banca de jornal, o ilustríssimo jornal O Pasquim 21, recém reinventado.

      Não tive dúvida; comprei-o.

       Maravilhado pelos desenhos, e pela profundidade dos textos – também por sua diversidade -, fiquei empolgado, economizando o pouco que recebia para todo mês adquiri-lo.

      Dentre os textos, gostaria de dividir, em especial, os textos do Nataniel Jebão. Desconheço sua história; ouvir, na época, que se tratava do pseudônimo de Fausto Wolf, também colaborador do Pasquim. Em todo caso, os textos são bem criativos e engraçados. Sarcasmo ao melhor estilo de Voltaire.
  
 Por Nataniel Jebão
 para o Pasquim - 2007

      Embora tivesse a mesma idade de Eva, o orgasmo só foi descoberto no século 19. As razões pelas quais o Todo-Poderoso não a informou da existência do orgasmo não estão registradas no Gênesis. Aliás, ele também não a informou da existência das doenças venéreas, do PFL, do José Dirceu, da fraude legalizada e de tantas outras coisas que só foram descobertas mais tarde e conduziram ao fim do mundo, como todos sabem. Enfim, ocupado como estava, deve ter se esquecido de chegar para a Eva e dizer:

      - Eva, quero te apresentar o Orgasmo. Olha, Orgasmo, esta é a minha criatura, Eva, sejam bons amigos.

      Ao contrário do orgasmo, a fome foi descoberta no dia em que o primeiro primata - cerca de 45 milhões de anos atrás - deu uma mordida na bunda de uma primata que puxava um ronco ao seu lado. Embora popular na África, na Ásia e na América Latina após o homem comer o primeiro piolho, até hoje algumas pessoas ainda não foram apresentadas à fome. No Brasil ela é conhecida da grande maioria e milhões de brasileiros tornaram-se tão íntimos que acabaram morrendo por ela. Não pensem, porém, que o rei, pelo menos aqui no Brasil, vai sufocá-la. Faz 30 meses, lembram? Governo novinho, honesto, lataria brilhando. O rei convocou os ministros ainda honrados na época para um safári até Guariba, no interior do Piauí. A idéia era mostrar a fome em estado puro aos ministros, coisa que eles não conheciam nem de longe, e ao mesmo tempo dar uma guaribada na fome de Guariba. Logo descobriu-se que ir a Guariba levaria mais tempo do que ir à Sibéria. Contentaram-se, portanto, com a fome pouco menos feroz do Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. O rei, que já a conhecia, estava calmo, mas seus ministros ficaram assanhadíssimos:

      - Como será que ela é? - teria perguntado o ex-ministro Anderson Adauto.

      - Dizem que é negra como a peste - teria dito o ministro Roberto Rodrigues ao colega Furlan.

      - Vamos parar com esse racismo aí, reclamaram a ministra Benedita, que ainda não fora orar na Argentina, e o ministro Gil, antes de começar a não fazer porra nenhuma.

      - Eu já a vi de pertinho uma vez, no Chapéu Mangueira - teria dito a Benedita. - Ela não tem nada de negra. É bem branquinha azeda, uma mistura de Maciel com Bornhausen.

      Antes mesmo de aplicar o pontapé inicial no Plano Fome Zero, o rei Çilva I verificou que ele já dava resultados. Mandou seus valetes de chambre pesquisarem e eles descobriram que não havia um político, banqueiro, militar, bispo, latifundiário, comerciante, industrial, publicitário, relações-públicas ou apresentador de TV com fome no país. Em verdade, os valetes informaram à VMRI:

      - Majestade, com exceção de uns poucos pobres que a fome parece privilegiar, o resto da população nem sabe o que é isso.

      - E quantos seriam esses poucos pobres? - teria perguntado o rei.

      E os valetes:

      - Cento e cinqüenta milhões.

      Reunidos os ministros - alguns até com escafandros, uniformes de escoteiro, canivete de utilidades e todos munidos de repelentes -, o rei notou a ausência do presidente do Banco Central, o bom Meirelles. Foi até a casa do ex-presidente do Bank of Boston:

      - Meirelles, vim te apanhar para te apresentar à fome e... Foi interrompido pela mulher do ministro:

      - Sinto muito, Digníssima Alteza Operária, mas o choque seria doloroso demais para o Meirelles. Este negócio de conhecer a fome ele terá de fazer aos pouquinhos. Primeiro, larga o caviar e o champanhe. Depois, os vinhos e as trufas, a lagosta e os chocolates suíços. Se ele for apresentado à fome assim, de repente, pode ter um troço, enlouquecer e mandar o patrão dele à merda, com perdão da palavra!

      - A mim? - perguntou o rei, ainda dono de tresloucada inocência.

      - Não, ao Bush. Ele também faz um biquinho por lá.

      - Santo homem.

      - Pois é graças a este bico que eu não preciso mais lavar para fora. 


 A lepra ao alcance da percepção

      Mantendo uma razoável distância, Preciosa Percepção, repórter da Globo, entrevista uma mulher faminta do Vale do Jequitinhonha:

      - A senhora me desculpe - diz a repórter -, mas nunca vi alguém com fome assim tão de perto. De modo que não sei exatamente o que lhe perguntar.

      A mulher, uma velha magérrima e desdentada, de seus 25 anos, com sete filhos (seis mortos), sorriu para a câmera e disse:

      - Também tenho lepra.

      Preciosa Percepção deu um pulo para trás e caiu numa restinga seca. Levantou-se embaraçada, sorriu para a câmera e voltou-se para a entrevistada:

      - Ninguém aqui quer saber de lepra, mas de fome. Como é ter fome?

      - Olhe, ter fome até que é bão quando a gente sabe que em dois ou três dias vai comer um ratão frito. Quando o bicho se instala no estômago, dá uma sensação de felicidade muito grande. A moça devia experimentar.

      - Para quem passa tanto tempo com fome, a senhora até que está bem gordinha.

      - Só na barriga. É que tô prenha. Olha, eu tenho aqui uma pereba no umbigo que queria mostrar para a senhora.

      Preciosa Percepção afasta-se rapidamente junto com seu câmera, enquanto diz:

      - Preciosa Percepção pesquisando a fome no Vale do Jequitinhonha para a Globo News.

Clitóris real pede socorro

      Na calada da noite, a princesinha Caroline apertava o clitóris contra o travesseiro. Por que tivera de ser vítima de um cruel destino? Por que tivera de      nascer bela, rica e princesa? Por que não nascera uma simples miliardária anônima, como tantas moças americanas e européias da sua idade? Por que sofrer em Gstaad todos os verões e em Seychelles todos os invernos? Por que sempre caviar e champanhe? Por que Ferraris e Rolls Roices? Agora queriam que casasse com o novo príncipe de Monte Carlo, o príncipe Alberto, que em seu quarto pergunta ao valete de chambre: "Mas por quê? Por quê? E por que com uma mulher?". Na Favela da Mandioca, em Brás de Pina, no Rio de Janeiro, Jandira Sete Flexas fazia um trabalho com duas galinhas cegas para que a paz voltasse a reinar nos corações dei promessi sposi.

Pensamento do dia

Liberdade de expressão é só força de expressão.

Jebolas

      * Caro rei Çilva: cuidado com os idos de agosto. Um mulatão chamado Gregório vai se oferecer para chefiar sua segurança pessoal. Não aceite.
      * A Secretaria de Turismo Informal informa: "Tráfico de pó e maconha liberado extra-oficialmente em Copacabana".
      * Cesar, o Maia, está economizando. Há quase dois anos que não gasta um tostão com o público.
      * O que não gastou gastará durante a campanha para governador, em publicidade na TV e outdoors, propagando a beleza das obras que não realizou. Tudo muito surrealista.
      * Bin Laden pretende explodir a estrela Rho Cas, 500 vezes maior do que o Sol. Só para ver, segundo suas próprias palavras, "a cara daquele anão de merda".
      * Só agora foi revelado. As obras sociais programadas pelo governo Lula não se concretizaram, pois todos esperavam que o ministro Gil levasse à frente a empreitada com o dinheiro arrecadado nos shows que fazia acompanhando o reizinho em suas viagens culturais.
      * O Gil embocou o público e o privado.
      * Se tivesse de definir a música brasileira atual, eu diria que voltamos ao primitivo batuque onomatopaico acompanhado de sons de símios à distância, enquanto um deputado baiano fala de hipérboles de Iansã abandonadas em aljôfares pagãos.
      * Só com os R$ 160 mil que recebeu por um show que fez em Macaé, o príncipe núbio Gil poderia ter matado a fome de 80 mil pessoas mas, segundo ele, não estava a fim.
      * Não sei por que toda essa gritaria sobre armamentos nucleares. Carlinhos Feijoada Completa, meu assessor para assuntos marginais, montou uma bomba atômica aqui na mansão. Estamos abertos a negociações.
      * Os rapazes gaúchos que mataram um velho índio caicangue estão em liberdade.
      * Deveriam servir 30 anos como empregadas domésticas na reserva indígena. Sairiam de lá umas moças... velhas.
      * O papa Bento XVI disse que não há um só padre passando fome no mundo.
      * Imagina-se que os padres estejam comendo comida, literalmente.
      * Aqui na Mansão Maldita, Gregor Samsa, meu chefe de masmorras, está dando um curso aos vizinhos pobres sobre as qualidades nutritivas de ratos, baratas, moscas e escorpiões.
      * Em São Paulo só tem um bar: o do Léo, na Rua Aurora. Em Curitiba também só tem um, o Stuart, na praça do Centro, que se dá ao luxo de só servir chope na pressão, steinhaeger e rollmops.
      * Acertem seus relógios. Os Estados Unidos atacarão o Irã quando Joszef Hkamsa, moleiro da Rua do Sabão, em Bagdá, sair de casa às três da manhã do dia 7 de outubro para dar uma mijadinha contra a parede da casa do seu velho inimigo, o alfaiate Fayssal.
sexta-feira, 1 de abril de 2011 0 comentários

Procura-se um corno

"Não causa surpresa que, na vida de qualquer pessoa, haja um momento incontornável: a hora de parar. Por que seria diferente com o sexagenário José Adauto Caetano, pai de 18 filhos, marido traído por sete das oito mulheres para as quais entregou seu coração sofredor? Presidente da Associação Brasileira dos Cornos (ABC) desde o surgimento da entidade, em 1999, Adauto está decidido: quer encerrar a carreira. Encheu-se de amparar farrapos de homens esmagados pela dor na quina do juízo. Chega de servir de guarida a almas eternamente arruinadas, que amolecem feito pudim quando começam a ouvir um LP antigo do Roberto Carlos. "Basta de chifre", desabafa numa manhã calorenta de sexta-feira.

Como num filme de ação em que o herói sai à procura do discípulo que faça sobreviver a linhagem dos bons, dando sequência à nobre missão de salvar o mundo, o líder máximo da ABC necessita de um sucessor. Um corno, evidentemente. Os desafios não são muitos, reconhece Adauto, condensando-os num só: construir uma sede para a instituição, que atende provisoriamente em uma saleta da rua Pedro Pereira, Centro. Mas está complicado deixar a cadeira que vem ocupando por mais de uma década. A razão é simples. Espécie de Lula cujo legado não encontrasse seguidores, o presidente admite: "Não há cornos qualificados para a tarefa".

Afinal, não se ensinam homens atraiçoados a administrar a dor e instituí-la numa associação com direito a CNPJ e outros compromissos legais. A história ensina: Frank Sinatra foi corno. O escritor e jornalista Euclides da Cunha também. Há quem mencione ocorrências de menor simbolismo, como o chapéu de boi que a ex-BBB Tessália pôs no também ex-BBB Michel. E nenhum deles encarou a facada nas costas como algo produtivo ou socialmente estimulante.

A ciência diz: os cornos (as armações que enfeitam a cabeça de alguns animais) podem ser pontiagudos como os do boi, pequenos como os da girafa ou espraiados como os do alce. José Adauto garante que nada disso importa para efeito de processo sucessório. "Só interessa que ele seja corno. E traga uma garantia", detalha, informando que, para atestar seu estado de chifrudo, o candidato tem de apresentar comprovação mínima de que, em dado momento da vida, foi passado para trás pela esposa ou namorada. De preferência, recomenda a quem pleiteia a vaga fazer-se acompanhar de testemunhas, caso em que ficaria patente sua condição.

Tudo pela lisura da transmissão do cargo, que está livre há duas semanas, quando, incentivado pela atual mulher, Adauto encarou com seriedade a resolução de se aposentar. "Estou cansado. São muitos anos dedicados a isso", lamenta o protético de clientela escassa. E, sem motivo aparente, recorda-se de Neiva, "a responsável por tudo. Foi ela que me traiu pela primeira vez". O presidente tinha vinte e poucos anos, barba rala e algum espírito aventureiro. Graças a ele, caiu nos braços de outra. Como paga, Neiva fez o mesmo. A brincadeira doeu mais nele que nela.

De acordo com o presidente, a Associação Brasileira de Cornos é uma "entidade filantrópica, e que, por essa razão, o Estado tem obrigação de ajudar". Hoje, sem recursos de edital nem de fundos de caridade, os cerca de 10 mil associados (considerados os membros apenas do Ceará) não ganham nada além de consolo e ombro pra chorar. Para piorar, a sede da confraria dos pontudos é precária, sequer tem um bar com vitrola e aguardente, dois dos ingredientes fundamentais no acolhimento desses enfermos de espírito. Foi pensando nessas benfeitorias que alguém mais jovem poderia implementar que Adauto pediu concordata. Se você se encaixa no perfil exigido pela ABC, favor telefonar para (85) 8602 3783."
(Ipú Notícias)
 
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