Editorial dessa sexta(04) do Jornal O Povo
A crise líbia começa a ser vista de maneira mais diversificada por correntes de opinião política que estão querendo entender melhor o que se passa no país. A mobilização dos "falcões" americanos (os mesmos grupos que pressionaram em favor da intervenção no Iraque) causa desconfiança nos meios democráticos, bombardeados por uma campanha midiática semelhante a que precedeu o ataque ao Iraque e que depois foi muito criticada por sua inconsistência e desinformação.
Enquanto navios americanos aproximam-se da Líbia, cresce a divisão entre os aliados a respeito da solução mais indicada. Se a crise deixou de ser o confronto do governo com civis desarmados e se transformou num enfrentamento entre forças armadas oficiais e grupos rebeldes armados, a questão muda de figura, pois então se trataria de uma guerra civil. E aí valeria o princípio da autodeterminação dos povos e da não ingerência nos assuntos internos. A atuação internacional seria no sentido político, através de pressão.
A Líbia difere dos regimes fundamentalistas muçulmanos pelo fato de ser um Estado laico. Por isso, o próprio Kadhafi é odiado pela organização terrorista Al Qaedda. O sistema político é baseado numa forma de organização que dá ênfase ao poder local, das comunidades regidas por clãs, cuja configuração se deu numa conjuntura de Guerra Fria, quando o mundo era dividido entre EUA e URSS. Líder de uma revolução nacionalista, Kadhafi se apresentou como alternativa entre os dois super poderes mundiais.
A intervenção militar na Líbia poderá gerar um efeito contrário ao desejado pelo Ocidente, transformando Kadhafi em herói, já que todos sabem que o motivo da pressão contra ele se deve ao petróleo. O raciocínio dos povos árabes é simples: se a luta é pela democracia, por que os EUA não condenam também a Arábia Saudita?
Evidentemente, é imoral a existência de ditaduras oprimindo povos, mas a solução deve ser universal, para ter credibilidade, e não fazendo a distinção entre ditadores "bonzinhos" (que não prejudicam os interesses do Ocidente) e os "maus" (geralmente nacionalistas). Quem deve decidir a sorte deles são seus próprios cidadãos, sem ingerência externa, a não ser através de mandato da ONU.

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