quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O mar de Ernesto Marques

Encontrei-me com um velho pescador nas areias de uma praia paradisíaca. Olhava para o mar vestido apenas de calça de brim, de um purpúreo desbotado, que encimava os joelhos. Tinha o dorso nu e alquebrado. Seus pés afundavam na areia que levemente as ondas reclamavam para si.

Aproximei-me, sem o olhar diretamente.

- Ainda por aqui, velho? Não ver que já está ultrapassado, meu caro! Ninguém mais vem ouvi-lo. Escassez de peixe... Vê!... Todos passam e ninguém dá mais a mínima atenção. Ah, como me lembro... Centenas, milhares... de todos os lados... vinham aprender a técnica correta de jogar a rede e puxar dezenas de peixes, os mais belos e bravos. Mas não eram pelos peixes, era pela forma; queríamos ter a força necessária, a certeza do movimento para lançar nossas frágeis redes, sem afobação; queríamos o rumo para adentrar o mar, no lugar certo.  Hoje... essas pessoas passam e lançam um breve aceno, como a um pai-avô, a quem devemos respeitar, mas já não devemos ouvir tanto a sério.

O velho ergueu a cabeça para respirar a brisa, no mais profundo que podia. Depois deixou o ar escapar pelo nariz, frouxamente. Virou-se para mim e disse-me:

- Você está diferente, vejo-o. Está mais seguro... Você tinha um brilho no olhar quando se sentou, bem ali, à frente de todos aqueles outros adolescentes... Esperava, como todos, respostas para a imensa confusão no espírito. Procurava, debalde, algo para libertar toda a raiva que sentiam pela opressão humana. Lembro-me dizendo a todos para manterem essa chama acesa: o ódio só terá fim quando as coisas mudarem... pelo ódio.

Retirou os pés do movediço que lhes cobriam por inteiro, e pôs a caminhar, divagando, com expressão sempre ausente.
  
- Sim... Você me procurou pelo mesmo motivo em que a maioria me procurava. Mas agora vejo, com orgulho, que já não precisas de velhos como eu. Emerge brilho diferente do fundo de teus olhos. Sinto que já lhes ajudei bastante... Mas sempre soube, talvez, que aquilo que eu teria para dar-lhes seria apenas uma bússola para vocês atravessarem um período conturbado.

Eu o olhava com veneração, qual sentimos quando sabemos que nunca mais voltaremos ver uma pessoa querida. Um sentimento de agradecimento misturado com a necessidade de nunca mais querer olhar para trás.

Antes de deixá-lo pela última vez, fiz questão de lembrar que eu não sou o único e, provavelmente, muitos outros tiveram, ou terão, essa última conversa.

- Sim, disse-me ele, muitos já não precisam mais desse mar... Nunca mais os vi. Outros ainda vêm me pedir conselhos. Mas esses nunca tiveram força suficiente para ir embora. No fundo, são boas pessoas: sempre pensado em ajudar os iguais... Quando podem... Quando não, ficam com mágoas guardadas no coração.

Já saindo disse-lhe, por fim.

- Adeus, velho... Outros de meu convívio talvez queiram lhe procurar algum dia. Se depender de mim, terão propósitos mais altivos. Sei que estarás mais antiquado que agora, mas acredito que encontrarás alguém para lhe avivar aquela chama de vida em seus olhos, onde outrora procurávamo-nos.  

0 comentários:

 
;