Por Paulo Elpídio de Menezes Neto
Cientista político e membro do Instituto do Ceará
João Brígido, aplicado intérprete da alma cearense, classificou os autóctones segundo o que lhe pareciam suas virtudes mais notáveis. E o fez com a ironia cáustica, porém divertida, dos jornalistas daqueles tempos. "Bons, burros e bravos", em três adjetivos claros a síntese das qualidades e dos defeitos da gente do lugar. Reflexos da saga de valentia do jagunço, dos bem-nascidos, dos homens de cabedais, dos rentistas ou meeiros, dos carecidos de toda ordem, enfim, do clero, nobreza e povo.
Na onda das revelações incestuosas do WikiLeaks, veio à tona, por estes dias, a tipologia construída pelo antigo cônsul-geral americano em São Paulo sobre os brasileiros em geral.
Descobrimos, graças às indiscrições espalhadas pela Internet, exemplo incomum de socialização do cochicho, quão árdua se mostra a missão diplomática para os que dela se ocupam. Louvemos a preocupação dos correios diplomáticos americanos e a de outros países, o estilo e a elegância da prosa consular, a acuidade na análise dos fatos e na projeção do futuro. Christopher McMullen, em apreciável esforço reducionista, em escrita apurada, classificou os brasileiros em três categorias: "bons", "maus" e "feios".
"Bons" são os paulistas, de classe média, com bom nível de escolaridade, em busca de "resorts" luxuosos, cassinos e estações de esquis. "Maus", os parentes e amigos de brasileiros residentes nos Estados Unidos, que para lá se mandam e de lá não querem voltar. E "feios" os candidatos pouco qualificados, dispostos a pagar o "pedágio" para burlar os controles das fronteiras, usar os "coiotes" mexicanos, fraudar e arriscar-se em qualquer empreitada.
Refleti gravemente sobre as duas tipologias, a de João Brígido ("bons", "burros" e "bravos") e a de McMullen, o cônsul-geral ("bons", "maus" e "feios"), buscando estabelecer entre elas uma correlação lógica mínima que me permitisse aplicá-las aos nossos homens públicos, os deputados Numa, à Lima Barreto, esses desvelados servidores da pátria, tão precisada anda ela de bons tratos. De pronto, afastei a categorização de João Brígido, por inaplicável aos personagens centrais das nossas desesperanças cidadãs.
"Bons", "burros" e "bravos" são, bem ao contrário, criaturas respeitáveis, pelos seus ímpetos, reconhecidos na magnanimidade das suas ações, e compreendidos na reincidência em seus erros. Porém, "bons", "maus" e "feios" valorizam uma classificação pontual, certeira, na qual se encaixam muitos dos nossos mais ilustres homens políticos, profissionais ou amadores, de memória antiga ou recente, ou na militância atual, ágeis na esperteza dos intentos dissimulados, rapaces na ronda das vantagens pessoais, insinuantes nas articulações bem-sucedidas, e prudentes na avaliação das oportunidades que o futuro lhes pode oferecer. Em qualquer uma das faixas – bons, maus e feios, segundo McMullen – estarão bem à vontade.

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