segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Para não dizer que não falei de flores

por Diego Guedêlha

Advogado

 

Não é porque a cor vermelha do bronzeado caiu bem com a roupa nova que pegar sol passou a fazer bem à saúde.

 

Não nos deixemos enganar: a proposta de Dilma/Lula é tão direitista e pragmática quanto a de Serra/FHC, porém com um agrado bastante sutil (ou não) aos nossos bolsos sexies.

 

E é justamente por isso que ela merece um olhar mais atento. Ora, todo mundo sabe o quão regozijante é sentir a subida do elevador. Porém, o que ninguém sabe é qual pavimento tem mais solidez e garante, além do fácil acesso, a permanência dita segura.

 

E provavelmente continuaremos sem saber, afinal, o que, de verdadeiro, foi incutido na cabeça dos cidadãos e cidadãs brasileiras que, ao longo desses anos, receberam bolsa-família, compraram automóveis e eletrodomésticos com redução do IPI e/ou deram o primeiro passo rumo à aquisição do sonho da casa própria? Houve algo além disso?

 

Pergunto porque atualmente temos pensado ser o time com camisa no jogo de domingo à tarde que passa na Rede Globo - aquela mesma que tenta empurrar goela abaixo a candidatura PSDbista -, agora transmitido na tela de uma LCD 40'' novinha em folha, comprada em 24 suaves prestações, praticamente sem juros.

 

Enquanto isso, os verdadeiros jogadores bebem whisky (puro malte, de preferência) e comem pedaços da nossa ignorância para tirar o gosto. São eles, os bancos, os construtores, as empresas de telefonia, os meios de comunicação de massa e os demais grandes grupos empresariais quem, de fato, têm direito ao pão nosso de cada dia. E todos eles, de uma forma ou de outra, são ligados ao Governo e têm cadeira cativa na santa ceia.

 

Essa, inclusive, anda bastante movimentada. Acho que nem uma edição remasterizada do glorioso woodstock poderia reunir pessoas tão diversas com um único objetivo, e olhe que na época se estava a falar da paz mundial. Trocar de partido, aliar-se à oposição, financiar campanha com dinheiro público, tudo vale, desde que seja para tascar uma generosa fatia de creme brulée (ou alguém esperava uma tapioca?) e um bom gole de vinho servido pelo nosso messias.

 

Tal refeição, contudo, não tem nada de moderna ou contemporânea, como o parece ser. Ao revés - ela é justamente a consolidação daquilo que a suposta vertente esquerdista tanto criticou antes de subir ao poder: uma política de conchavos, de favorecimentos, de falcatruas e da falta de compromisso com o bem público. Prova maior disso são os inúmeros escândalos e as alianças tenebrosas que se têm feito entre os "deuses" do nosso Olimpo.

 

Enfim, é preciso atentar para o fato de que, diversamente do que se anuncia, nós não avançamos tanto assim. Ainda somos um povo despido de qualquer consciência política, moral e ideológica e as urnas são o exemplo mais pulsante dessa afirmação. Contentar-se em votar no "menos ruim" não denota progressão, mas sinais de falência de um regime democrático que deveria estar vivendo a sua belle époque.

 

De todo modo, espero que esse nefasto momento político nos sirva de lição e, Deus queira, conduza-nos a dias melhores. Mas para tanto é imprescindível que estejamos sempre insatisfeitos, nunca conformados. Precisamos querer mais, cobrar mais, fazer mais - uns dos outros, uns para os outros. Afinal, só mesmo para quem deseja pouco nada é suficiente.

 

"Eu devia estar contente

Porque eu tenho um emprego

Sou um dito cidadão respeitável

E ganho quatro mil cruzeiros

Por mês...

 

Eu devia agradecer ao Senhor

Por ter tido sucesso

Na vida como artista

Eu devia estar feliz

Porque consegui comprar

Um Corcel 73..." (Trecho de "Ouro de Tolo" - Raul Seixas)

 

0 comentários:

 
;