sábado, 15 de setembro de 2012

A sangue frio



Talvez não seja tão difícil gostar da literatura de Truman Capote. As linhas são claras, as palavras fluem em ritmo agradável. Minúcias de fatos são exploradas ao máximo, levando o leitor a viver cada capítulo como se fora um leitor/cúmplice das cenas, dos personagens. Podemos até afirmar, sem medo de passar o ridículo, que esperamos, suspensos, ouvir uma voz anunciar ‘esteja preso’, e daí por diante, vivermos somente para esperar nossa execução na forca, atrás das grades com Perry e Dick, os dois culpados da morte brutal de uma família inteira, no Estado do Kansas, no meio oeste dos Estados Unidos.

Truman começa seu livro A sangue frio com o dia-a-dia da família que, dentre todos os personagens envolvidos na trama, eram os únicos que não poderiam relatar como viviam, o que pensavam, do que gostavam, e o mais importante, os únicos que poderiam descrever sobre àquela madrugada sangrenta de sábado para domingo, quando a família Clutter, o Sr. Clutter, a Sra. Clutter, Nancy Clutter e o menino Kenyon Clutter, ficaram reféns dos seus frios assassinos. A riqueza de detalhes daquela noite é tão impressionante, a ponto de fazer o leitor acreditar que nada poderia ter sido diferente do que está descrito no livro.

Todas essas descrições, como se fora narrado à medida que acontece, põe dúvida ao leitor sobre até que ponto os fatos descritos no livro A sangue frio são reais. É esse pensamento crítico que o leitor vai desenvolvendo, pouco a pouco, quando, por exemplo, se depara com a narrativa dos últimos dias da família antes do massacre, cenas de um filme que só poderiam sair do inconsciente imaginativo, e criativo, de Truman Capote. Capote, juntamente com outros expoentes do jornalismo norte-americano da metade do século passado, como Gay Talese, foram os protagonistas do que se chamou de Novo Jornalismo.

O Novo Jornalismo era escrito de forma literária, mas afirmava-se como não ficção, sempre comprometido com a verdade. “O novo jornalismo, embora possa ser lido como ficção, não é ficção. Tão verídico como a mais exata das reportagens. É, ou deveria ser, tão verídico, como a mais exata das reportagens, buscando embora uma verdade mais ampla que a possível, através da mera compilação de fatos comprováveis, o uso das citações, a adesão ao rígido estilo mais antigo.” Nas palavras de Gay Talese, compreendamos a angústia de Capote em manter seus personagens o mais verossímeis possíveis, com complexas construções literárias. 

Apesar de pormos em cheque A sangue frio quando pensarmos nas inúmeras possibilidades que o autor teve de se enganar e enganar seus leitores, e pensando que o livro foi lançado quando o autor já gozava de enorme prestígio em seu país, podemos, sim, afirmar que A Sangue frio tanto nos surpreende quanto nos decepciona, pois o Novo Jornalismo é isso mesmo, essa tentativa árdua de colocar por sobre a verdade objetiva dos fatos, as linhas tortas da paixão literária.
  

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