Talvez não
seja tão difícil gostar da literatura de Truman Capote. As linhas são claras,
as palavras fluem em ritmo agradável. Minúcias de fatos são exploradas ao máximo,
levando o leitor a viver cada capítulo como se fora um leitor/cúmplice das
cenas, dos personagens. Podemos até afirmar, sem medo de passar o ridículo, que
esperamos, suspensos, ouvir uma voz anunciar ‘esteja preso’, e daí por diante,
vivermos somente para esperar nossa execução na forca, atrás das grades com
Perry e Dick, os dois culpados da morte brutal de uma família inteira, no
Estado do Kansas, no meio oeste dos Estados Unidos.
Truman começa
seu livro A sangue frio com o dia-a-dia da família que, dentre todos os
personagens envolvidos na trama, eram os únicos que não poderiam relatar como
viviam, o que pensavam, do que gostavam, e o mais importante, os únicos que
poderiam descrever sobre àquela madrugada sangrenta de sábado para domingo, quando
a família Clutter, o Sr. Clutter, a Sra. Clutter, Nancy Clutter e o menino
Kenyon Clutter, ficaram reféns dos seus frios assassinos. A riqueza de detalhes
daquela noite é tão impressionante, a ponto de fazer o leitor acreditar que
nada poderia ter sido diferente do que está descrito no livro.
Todas essas
descrições, como se fora narrado à medida que acontece, põe dúvida ao leitor
sobre até que ponto os fatos descritos no livro A sangue frio são reais. É esse
pensamento crítico que o leitor vai desenvolvendo, pouco a pouco, quando, por
exemplo, se depara com a narrativa dos últimos dias da família antes do
massacre, cenas de um filme que só poderiam sair do inconsciente imaginativo, e
criativo, de Truman Capote. Capote, juntamente com outros expoentes do jornalismo
norte-americano da metade do século passado, como Gay Talese, foram os
protagonistas do que se chamou de Novo Jornalismo.
O Novo
Jornalismo era escrito de forma literária, mas afirmava-se como não ficção,
sempre comprometido com a verdade. “O novo jornalismo, embora possa ser lido
como ficção, não é ficção. Tão verídico como a mais exata das reportagens. É,
ou deveria ser, tão verídico, como a mais exata das reportagens, buscando
embora uma verdade mais ampla que a possível, através da mera compilação de
fatos comprováveis, o uso das citações, a adesão ao rígido estilo mais antigo.”
Nas palavras de Gay Talese, compreendamos a angústia de Capote em manter seus
personagens o mais verossímeis possíveis, com complexas construções
literárias.
Apesar de pormos
em cheque A sangue frio quando pensarmos nas inúmeras possibilidades que o
autor teve de se enganar e enganar seus leitores, e pensando que o livro foi
lançado quando o autor já gozava de enorme prestígio em seu país, podemos, sim,
afirmar que A Sangue frio tanto nos surpreende quanto nos decepciona, pois o
Novo Jornalismo é isso mesmo, essa tentativa árdua de colocar por sobre a
verdade objetiva dos fatos, as linhas tortas da paixão literária.

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