terça-feira, 27 de julho de 2010

As marcas de uma tragédia

Em uma sela na sede da Corporação, um homem transtornado alterna momentos de meditação com choros compulsivos. A esposa, grávida, chega para a visita e logo os dois se abraçam. Ambos, muito emocionados, choram procurando consolar um ao outro. É o ombro forte para toda e qualquer dor. Daquele momento em diante, a vida daquele casal mudará para sempre. Ele, autor de um tiro que vitimou um adolescente, vive o pior momento de toda sua vida. São quando os planos de um bom policial, com boa conduta dentro da instituição, de viver ao lado do filho, preste a nascer, desaparece, na mesma rapidez que a pólvora explode dentro do cilindro do revolver, e projeta o chumbo frio e mortífero da sua arma. Sangue e desorientação marcam o momento trágico em que o corpo do garoto de 14 anos cai desfalecido da garupa da moto. As marcas dessa terrível tragédia estarão para sempre no garoto morto, no pai, na mãe, no policial que efetuou o disparo, na esposa do policial, grávida, e por fim, no bebê, que nascerá num palco shakesperiano de enganos, dores, tristeza; sem a medida imprescindível da comédia para dar-nos o equilíbrio necessário para continuarmos vivendo.

 

Esse será, talvez, o ponto de vista que menos leremos nos jornais, ou escutaremos quando ligarmos a televisão em algum jornal de notícias. Ouviremos apenas, a crítica pela crítica, da sociedade, se perguntando como é possível se investir tanto dinheiro em segurança, e continuarmos tomando conhecimento de fatos tão lamentáveis como esse. Esse era também meu pensamento quando li sobre o ocorrido. A culpa é a primeira coisa que nos vêm à cabeça. Responsabilizar é preciso. Porém, o mais provável é que os atores principais desse grand finale do teatro do absurdo, sejam os únicos responsabilizados.


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