quarta-feira, 14 de abril de 2010

Em briga de marido e mulher...

O menino encostou o ouvido na parede e pôs-se a ouvir. Os gritos vinham do quarto de um casal da casa ao lado. Brigavam por ciúmes, foi o que pareceu ao menino. Juras de morte, palavrões, e choro, muito choro.

 

De súbito, o barulho no quarto desapareceu. Ouviam-se, agora, gritos na cozinha. O menino acompanhava os passos do casal sempre com o ouvido pregado à parede. De repente assustou-se e recuou com o olhar apavorado. Pelo que pudera compreender, a mulher sacara uma faca de uma gaveta, e saíra correndo atrás do marido, com a faca em riste, louca para ir à forra com o causador do seu infortúnio. O menino então correu para a janela da frente da sua casa a tempo de conseguir ver o momento em que o marido se esquivava de uma certeira facada, e escapulir pela rua.

 

Na rua, a movimentação já se fazia presente. Amigas e vizinhas do casal gritavam com as mãos na cabeça, falando a todo instante:

- Que é isso, meu Deus! A Fátima enlouqueceu!

Começavam, então, as diferentes explicações para o que tinha acontecido. Uns diziam:

- A coitada não agüentava mais as lapadas que levava desse nojento.

Outras, mostrando mais conhecimento de causa, afirmavam:

- Que nada, mulher! Acho que ela descobriu as presepadas desse bicho fulêro, chêi de rapariga por aí.

De onde surgissem os comentários, o marido sempre ficava com as pragas e os maldizeres das vizinhas. Só algumas poucas mulheres atreviam-se a defendê-lo:

- Isso é coisa de mulher de respeito? Correr atrás do marido com uma faca? Bom ou ruim, Marido é para se respeitar.

Alguns homens vendo a intrigante cena da porta de suas casas esboçavam uma tímida revolta:

- Se isso fosse aqui, em casa, isso não aconteceria, meu amigo. Minha mulher correr atrás de mim com uma faca? Ela tem é juízo!

Nesse instante, a esposa aproxima-se do homem e pergunta:

- O que é que você disse aí? Quem é quem tem juízo?

- Ela, meu bem, ela é quem tem juízo. Tava na hora de acabar com a pouca vergonha daquele safado, respondeu o marido meio inclinado para trás, com as mãos protegendo o rosto.

De volta à cena da perseguição implacável da esposa ao marido, o fato é que ele correu, mas correu mesmo, para tentar salvar sua vida. Tanto suou para sobreviver, que sua camisa pregara no corpo, e suas chinelas há muito que já as tinham perdidas.

Porém, algumas almas de espírito cívico apareceram em meio àquelas outras almas absorvidas pelo entretenimento e pelo inusitado. Ligaram para a polícia que, tendo sempre um carro a fazer patrulha nos bairros da periferia, apareceu logo em seguida.

 

Eram três policiais bem conhecidos no bairro. Um deles se aproximou perguntando quem fez o chamado. Depois de anotar alguma coisa na prancheta que levavam no carro, mandou que os populares fossem para suas casas, cuidar de suas vidas, e que deixassem a vida alheia.

 

A mulher-faquir, cansada de dar voltas no quarteirão em perseguição ao pobre coitado, e vendo os policiais dobrarem a esquina para pegá-la, embrenhou-se na sua casa instalando-se no quarto. O marido, vendo os policiais se avizinhando da sua porta da frente, entrou pelos fundos e depressa entrou no quarto onde a sua mulher se encontrava.

 

A polícia demorou-se ainda uma hora para tentar persuadir o marido a entregar a esposa que o tentara matar. Mesmo após explicarem todo o perigo que ele corria nas mãos dessa louca, ele não cedeu. Então os policiais foram embora, praguejando contra a população. E os dois ficaram lá, no quarto, trancados, em silêncio, como se não houvera acontecido nada.

 

Na casa ao lado, o menino, pregado à parede, tentava escutar alguma coisa. Mas já não conseguia distinguir as vozes naqueles sussurros.


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