Marina já não é feliz como há alguns meses. A dor que hoje sente, não corrobora com conceitos fatalistas; de forma alguma se resigna em aceitá-la. Sempre cabisbaixa, no quarto, sentada na cama, de quando em quando se levanta para espreitar a janela; acredita que cada olhadela pela janela, devolver-lhe-ia a imagem de um passado recente, do tempo em que ela vislumbrou, em meio aos passos claudicantes das pessoas na rua, os passos firmes e decididos de Murilo, ao dobrarem a esquina. Foi naquele exato momento, que os belos raios daquele Sol, aqueceram-lhe a fronte, apesar do dia chuvoso. Foi a partir daquele dia, que suas manhãs deixaram de ser monótonas.
Todos os dias, bem cedo, Murilo passeava na calçada em frente à casa de Marina. Ignoro seu destino - logo verão que não há importância nesse detalhe. Da janela, ela o acompanhava com um terno olhar, daqueles que nos revela a pureza da alma, comprova a sinceridade das intenções de quem já está amando. Ele, que já se acostumara à presença da moça, acenava modestamente, fazendo uma singela sudação. Marina sorria de felicidade. Se o nosso jovial personagem percebia algo o mais do que a simples coincidência de ela estar sempre ali, na janela, naquela mesma hora, não consigo dizer-lhes. Mas o fato é que em pouco tempo já estavam namorando.
Porém, amigos, durou pouco... Estiveram juntos por curtos dois meses. A paixão foi intensa, pródiga, honesta. Hoje, nas idas constantes à janela, ela contempla somente a sua infinita solidão, a chuva que cai lá fora insistente naquele dia cinza, e uma pequena e frágil borboleta, que pousada em flores silvestres, ofendia a todos com seu colorido.

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