Debruçada sobre a mesa repleta de papéis e mapas, Luiza repassa todos os planos para a viagem. Olhos atentos checam todo o conteúdo programático, para aquela que será a maior viagem que já fizera. Anotando, telefonando, tudo é organizado num pequeno papel que vai tomando nota de cada lugar e horário precisos. De tempos em tempos olha o relógio para certifica-se do horário, que se verifica bem adiantando; umas três horas da madrugada, copos, comida e latas de refrigerantes pelo chão.
No topo da escada do andar superior da casa, através de uma enorme janela de vidro, Murilo olha para a escuridão da noite e para as árvores enegrecidas, distantes, quase sumidas. Voltando a atenção para o centro da espaçosa sala da casa abaixo, há tempos que notara mudança no comportamento da esposa – deixou de ser uma criatura mofina pelos cantos da casa, verdadeiramente se interessava por alguma coisa. Os preparativos para a viagem haviam-lhe refeita. Ansiedade, emoção, comprometimento, persistência, retornaram, enfim, para o espírito de Luíza. Antes, depressão, remédios, lágrimas, lamurias...
Dessa vez não poderia falhar, pois já se perdera do caminho diversas vezes. Aliás, perdera-se sua vida inteira: no papel, nos planos, nos sonhos. O dia seguinte, à hora do amanhecer, seria diferente.

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